Ninguém troca de pátria por um simples querer. Ainda mais em início e meados do século XIX, quando vir da Europa para a América, tinha a mesma dimensão de, hoje, viajar da Terra à Lua, e só com a passagem de ida.
As maiores razões para emigrar costumam ser de natureza econômico-social. Não foi diferente com os alemães que vieram para o Sul do Brasil, e – no caso da presente obra – para a região da atual cidade de Candelária. Deles, um grupo maior era de gente sem instrução, camponeses exilados nas grandes cidades, artesãos desempregados pela Revolução Industrial, gente que sofria perseguições religiosas, e simpatizantes de idéias muito novas de Igualdade. Outro grupo, o menor, era de mercenários, militares que se engajavam de guerra em guerra, profissionais das armas. Entre esses, muitos rapazes da aristocracia que, não sendo primeiros filhos varões, tinham de optar – por menos indignas - pela vida eclesiástica ou pela da caserna. O Império brasileiro precisou de tais militares para lutar contra Rosas, o caudilho argentino. No contrato, de quatro anos, constava tanto a possibilidade de, ao final, voltarem à Europa com um bom dinheiro, ou escolherem terras no atual Rio Grande do Sul ou em Santa Catarina.
Eram homens cultos: muitos deles haviam estudado em universidades tradicionais, e eram todos amantes da boa música e da leitura de qualidade. Mas, no campo de batalha, os soldados rasos e alguns oficiais brasileiros apelidaram-nos brummer, rezingões, por reclamarem de tudo: dos soldos, da comida, do clima, das estratégias militares e da própria Natureza. Porém, os brummer que, após a baixa, decidiram-se por ficar entre nós, tornaram-se logo o fermento cultural das colônias, movendo-se em dois sentidos: primeiro, mostrando aos colonos mais rudes, um pouco da identidade alemã – que desconheciam – mandando vir carregamentos de livros, instrumentos musicais e armas, para os clubes de tiro; depois, chamando-os para a conquista da nacionalidade brasileira (que lhes era permitida, mas que hesitavam em reivindicar), pois esta era a pátria de acolhida, o lugar da liberdade e prosperidade. Os colonos costumavam queixar-se do tratamento recebido ao chegarem, das promessas não cumpridas, do abandono a que foram relegados pelos governantes. Os brummer, que, em maioria tornaram-se professores, apontavam o caminho da ativa participação política como o único capaz de trazer resultados práticos à sua gente. Foi quando começaram a eleger deputados, e a divulgar suas idéias em jornais.
Assim, dentre a gigantesca obra dos imigrantes alemães, dos quais descende a autora e dos quais também sou descendente, tenho especial apreço por esses homens que, se não muito aptos para os trabalhos agrícolas, dedicaram o melhor de suas forças para semear, entre os compatriotas, um futuro melhor.
Marli Hintz, em seu dedicado trabalho de pesquisa para Retalhos de Candelária, encontrou alguns brummer que viveram em Candelária. Deve passar por aí, ao menos em parte, o motivo de tanto interesse, na comunidade, pelos bens culturais, pela história e pela educação.
Boa e orgulhosa leitura,
Valesca de Assis, escritora,
autora de A valsa da Medusa e Harmonia das esferas
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