“Se queres ser universal, fala da tua aldeia”, preconizava o grande escritor russo Leon Tolstoi no final do século XIX. Marli Marlene Hintz com este Retalhos de Candelária, falando de sua querência, nos fala das relações entre seres humanos em situações distintas e dos enlaces das relações humanas com a terra, com a natureza, com a criação de singelas e complexas estruturas sociais que fazem de cada comunidade, pela sua história e identidade cultural, um espaço ao mesmo tempo singular e universal.
O trabalho da professora Marli, além do rigor científico lastreado nas pesquisas que vem realizando há anos com paciência e determinação, através dos depoimentos de pessoas de diferentes gerações e condições sociais que colheu ao longo do tempo e na bibliografia que consultou, labora de tal jeito o conceito de universalidade que faz de seu livro uma leitura apaixonante sobre um lugar especial no mundo: a Candelária de todos nós.
Nestes tempos de globalização massificadora, que a tudo pretende padronizar segundo a régua, o esquadro e o compasso do mercado, do consumo e do lucro, pensar o chão, onde nascemos e temos nossas raízes, para nos conhecermos melhor através das experiências coletivas, de vicissitudes e conquistas que caldearam nossa formação por sucessivas gerações, é uma reação civilizatória da maior importância.
Como missioneiro da região dos Sete Povos, terra onde nasceu Sepé Tiarajú, cuja morte completará 250 anos em 7 de fevereiro deste ano e tem enorme significado para a luta emancipatória dos povos até hoje, ao ler o livro da professora Marli Marlene Hintz, senti a força do projeto de sociedade solidária que os jesuítas e os índios, vivendo em comunidades, pretendiam espraiar e enraizar pelo Rio Grande afora.
Na origem da Candelária de hoje estão duas reduções jesuíticas: Jesus-Maria e São Cristóvão. Os padres e os índios consorciados num projeto comunista-cristão nestas plagas, longe dos impérios Português e Espanhol, palmilharam também o solo vermelho dos Sete Povos das Missões, entre os rios Ijuí e Piratini, à margem esquerda do Rio Uruguai e também à sua margem direita em território hoje argentino e paraguaio, no alvorecer da formação identitária do povo gaúcho. Infelizmente as forças que massacraram populações inteiras em busca de riquezas e mão-de-obra escrava também pisotearam o mesmo solo: bandeirantes, capitães-do-mato e pretendentes de sesmarias a serviço das coroas da Espanha e Portugal.
Incorporaram-se, na saga heróica de formação de Candelária: os negros que, arrancados de sua pátria mãe - a África - para cá foram trazidos como escravos; os imigrantes alemães principalmente, mas também de outras etnias que, arrebanhados por mercadores, atravessaram o oceano para aqui construir quase do nada a dignidade de vida que o velho continente lhes negava. Daí que relatos como o da abertura das primeiras ruas, a construção das casas, a instalação dos primeiros estabelecimentos comerciais e industriais, o abastecimento de água, a conquista da hidrelétrica, o morro do Botucaraí e seus mistérios pré-históricos e mais recentes, o sonho não realizado do bondinho e o sonho transformado em realidade do aeroclube e campo da aviação narram o próprio fluxo do rio da vida com suas corredeiras e seus remansos.
O Celso Ruy de Almeida, de saudosa memória, amigo comum que a autora homenageia no pórtico da sua obra, me levou por diversas vezes a conhecer o interior rural de Candelária, o fumicultor e o seu modo de vida. Agora, lendo Retalhos de Candelária, senti-me ainda mais integrado à paisagem humana, cultural, geográfica e sentimental de uma comunidade típica do nosso Rio Grande. E como se assemelham e se distinguem, no particular e no universal, a Candelária de todos nós e a minha Bossoroca.
Olívio Dutra
|