Marli Marlene Hintz

Obras: textos




Palavra de Abertura



Em um primeiro momento, não havia a intenção de criar uma obra acerca da imigração em nosso município. Tudo não passava de interesse particular, em recriar a própria genealogia. No entanto, tão logo iniciada a pesquisa, causou surpresa a grande quantidade de anglo-saxões estabelecidos em Candelária, fato esse nunca ou pouco mencionado por outros autores.
Além disso, a medida em que os trabalhos avançavam, surgiam, cada vez mais, dados considerados peculiares e interessantes, tais como, a presença de cinco brummers entre os que migraram ao solo candelariense. Estas pessoas, de alto nível intelectual, formadas pelo exército prussiano, foram fundamentais na defesa das fronteiras do nosso Estado, contra Oribe e Rosas, no período de 1851-52. Por integrarem uma elite, e finda a guerra para a qual foram contratados pelo Império, estes militares, conhecidos também como “mercenários”, podiam retornar ao seu país de origem, ou permanecer na província, recebendo terras gratuitamente, onde escolhessem se radicar. Sem dúvida, eles foram essenciais para a prosperidade das colônias alemãs.
Outro fato, que chamou a atenção, foi a diferença da causa mortis entre os imigrantes e os portugueses aqui estabelecidos. Enquanto a maioria destes faleciam de epidemias, como diarréia sangüínea, aqueles morriam em conseqüência de problemas pulmonares. Também as mortes por parto são quase insignificantes entre as portuguesas, se comparadas às de origem alemã. E enquanto as mortes por suicídio ocorriam no público masculino alemão, esta era praticada por adolescentes lusas, aqui nascidas.
Temos ainda, com a introdução dos imigrantes europeus, uma enorme diversidade de profissões em cada localidade, muitas das quais, antes, só eram encontradas em centros maiores. E, isso, muito contribuiu para o rápido desenvolvimento das colônias alemãs.
Quanto à pesquisa em si, ela foi centrada em registros (livros de óbitos e batismos) das comunidades religiosas locais, existentes na época, mais especificamente da Igreja Evangélica Luterana Cristo, da Igreja Evangélica Sinodal e da Igreja Católica. Também foram de grande importância os livros de óbitos do Cartório de Registros Públicos de Candelária e a relação que nos foi fornecida pelo Centro de Estudos Genealógicos (CEGENS) de Santa Cruz do Sul. Como complemento, foi realizado um vasto levantamento em cemitérios, incluindo os pequenos, tido como familiares, e onde se pode confirmar a maioria dos sepultamentos. Contudo, diversas vezes foram encontradas divergências, referentes quase sempre a datas de nascimento ou de falecimento. Optou-se, nesses casos, aleatoriamente entre uma ou outra fonte. Quanto à grafia de nomes e localidades, no entanto, seguiu-se a forma conforme o registro do pastor ou do escrivão.
É certo também que alguns imigrantes não foram localizados/identificados, pois excluem-se do universo pesquisado, tais como aqueles que faleceram antes de 1874, cujos túmulos não mais existem em cemitérios, uma vez que o registro de óbitos, iniciado pela igreja, refere-se a partir daquele ano; já o Cartório de Registros Públicos de Candelária traz os falecidos a partir de 1881. Também aqueles que migraram a outros municípios, ou aqueles vinculados a comunidades religiosas de outras localidades, como, por exemplo, os da Linha Germânia (hoje Linha Brasil) e Linha Sete de Setembro, (atual Linha Palmital), que, devido à proximidade, pertenciam às igrejas de Cerro Branco.
Além disso, nem sempre se pôde obter os dados completos de cada imigrante. Isto porque, os que apenas foram encontrados em cemitérios, se dispunha somente as lápides com seus registros. Outros ainda foram apenas mencionados nos livros do Cartório de Registros Públicos, cuja morte foi anterior a 1881, quando do registro de falecimento de algum filho. Identificou-se estes graças a citação do nome dos pais, quando o escrivão acrescentava “... filho de Fulano de Tal, residente neste Districto, já fallecido...”.
Ainda assim, são 439 nomes de famílias que compartilho com os leitores que buscam alguma informação sobre seus primeiros ancestrais e que habitaram nesta bela região.

A autora

(In: HINTZ, M. M. Retalhos de Candelária, da pré-história à colonização européia. São Leopoldo: Oikos
Editora, 2006, II vol. Os imigrantes, p. 17)



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