Ela mantinha-se quieta em seu silêncio. As lembranças não a abandonavam, e o presente vinha instalar-se sempre da mesma forma: sorrateiro e gélido. Para que vida, perguntou-se, se à noite não dormia? Os fantasmas vagavam de peça em peça, à sua procura. Por que não a deixavam em paz? Pressentia-os. Através da claridade do luar, via as sombras se esboçando na parede. Duas vezes ouvira vozes, mas agora estavam caladas.
Apoiou-se na cômoda. Olhou pela janela. Por um instante, pensou que hoje seria diferente. Deitou-se. Puxou as cobertas. Ouviu um estalo. Arregalou os olhos. Sim, era ele que retornava para cobrar-lhe a confissão que negara à justiça. Procurando proteger-se das ameaças, ela enfiou a cabeça sob o travesseiro e gritou:
- Sim, sim, sim. Sim, fui eu quem soltou aquele rojão que iluminou o bordel e deixou as tias de cabelo em pé e os homens de cuecas borradas.
Só assim ela conseguira dar fim àquela quenga ordinária, livrando-se dessa erva tão daninha. Chorou. Toda vez que pensava no episódio, magoava-se. Não queria matá-la. Um susto lhe bastaria.
No princípio, ela achou que dera importância demais ao flerte de seu marido. Com o passar do tempo, constatou que o desejo dele pela amante era muito maior do que calculara. Revoltou-se. Sentiu que o infame da estória era apenas ele. Não teve dúvidas. Aguardou o seu retorno do trabalho. Quando o viu se aproximando do prédio, correu, abraçou um objeto e foi à janela. Na hora certa, soltou o aparelho. A TV caiu do 10° andar, e ninguém mais viu o fato.
- Bem no alvo, desgranido _ ela parecia aliviada, ao ver o pobre homem estraçalhado no chão.
E assim encerrara a questão. Nada mais a aborreceria.
Resolveu sair. Foi comemorar no Águas Claras. Pediu um uísque. Sorveu-o, comparando-o a um elixir. Decidiu voltar para ver se já haviam recolhido o lixo. Entrou em seu Monza. Rodou algumas quadras. Notou que um carro da polícia a seguia. O guarda a fez descer e convidou-a a ir até a viatura “se a senhora concordar”.
Arrepiou-se. Perguntou o porquê do convite, começando a sapatear. Lembrou-se de quando era criança. Se ela não quisesse, não iria, não fazia. Mimada, esperneava e impunha suas vontades. O guarda olhou-a sem entender. Dando-se conta do seu gesto, ela disse:
- Odeio ver baratas na calçada. Mato todas.
(1992)
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