Quando me propus pesquisar sobre a história de Candelária, RS, a partir de 1996, comprovei, mais uma vez, ao longo deste trabalho, que afinidades, sensibilidades não nascem do contado entre as pessoas. Algo mais profundo ocorre bem antes, talvez até trazido de berço. No nosso caso, ocorrido entre os meus entrevistados e eu, foi o gosto nato pela cultura, em promover o conhecimento, em instigar as pessoas de modo simples, a conhecer sempre mais sobre o seu passado e o lugar onde vivem, facilitando o acesso, sobretudo, a quem não o teve, a aprender continuamente além. E assim, numa interação muito humana com os meus colaboradores, fomos trocando experiências. Em outras palavras, muito aprendi com todos numa troca afetuosa, construindo pontes de dados e informações preciosas com aqueles a quem, muitas vezes, nunca antes havia visto, através de entrevistas e que tem, no seu íntimo, o prazer pela mesma procura: a cultura.
Pode-se dizer que, embora esta obra tenha apenas uma autora, centenas foram as mãos que a escreveram, através da cedência de documentos e fotografias, além dos relatos baseados na memória oral de muitos candelarienses, pois foram eles, ou seus antepassados, que vivenciaram os fatos in loco, com exceção das questões indígenas e jesuíticas, pesquisada através da imprensa escrita.
Tão logo pensei em elaborar este trabalho, não posso negar que certo conflito interior surgiu. Esta seria uma amarra a mais para permanecer na cidade onde nasci, mas onde me sinto, tal como o foi após ter me formado, uma passageira que alçará vôo quando estiver cumprida à missão do resgate parcial da História de Candelária. Portanto, aceitar seria como embarcar em mais uma viagem, cujo porto final não saberia dizer quando o teria alcançado. Já a renúncia me pareceu um ato egoísta, porque permaneceriam apenas comigo, ainda por um longo período, as tantas informações que obtive, cuja finalidade era a de escrever ou reescrever a história do meu município na forma de romance histórico.
Desse modo, muito disputaram, entre si, minha razão e o meu coração, até que chegassem a uma união salutar, optando pelo mais belo: um trabalho consciencioso da sua responsabilidade, sem nunca aniquilar a emoção transbordante na elaboração de cada tema, em divulgar conhecimento através do que se chama de educação permanente. Reconheço que é fundamental freqüentar as salas de aula, mas também sei que o melhor da vida se aprende numa boa leitura, numa boa conversa, numa experiência vivida, numa viagem a algo desconhecido.
A partir daí, tudo foi surgindo naturalmente. Definido o quê e como seria a obra, faltava apenas o nome. Num toque surgiu Retalhos de Candelária, da pré-história à colonização européia, uma vez que cada dado, cada informação, cada lembrança, cada fotografia, foram tecendo as histórias, como se fossem retalhos a compor uma peça final.
E se me perguntassem o porquê da pesquisa sobre Candelária, a resposta seria imediata: porque Candelária me encanta! Não pelo fato de ter nascido aqui, mas porque se comparado a tantos outros municípios gaúchos, vê-se que é totalmente exclusivo, reunindo ricos aspectos em todas as direções de análise: é deslumbrante na área da Ciência Universal, com material fossilífero de animais pré-históricos de 230 milhões de anos; é fenomenal na área da História, tendo sido sede de duas prósperas reduções jesuítas em plenos anos de 1600; é extraordinário em belezas naturais, flora, fauna, sem esquecer do Botucaraí; teve uma colonização de pioneiros desbravadores. E é por estes caminhos de cultura que convido gentilmente a todos a viajar nesta obra.
A autora
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