Marli Marlene Hintz

Obras: crônica




A primeira vez que desejei a morte



Lembro-me bem do fato, embora fosse muito menina. Talvez sete anos, no máximo dez. Trabalhávamos na roça, no sol escaldante. Meu trabalho era recolher os feixes de fumo, colhido pelos adultos, e depositados por entre as carreiras. Não entendia bem porque tinha aquela tarefa, mas crescia sabendo que era necessário ajudar os pais. Mais tarde é que soube. Era porque não diferenciava ainda as folhas a serem retiradas, das que deveriam continuar no pé, até a próxima colheita. Como recompensa, sonhava com alguma roupa nova, ou um brinquedo que raramente vinha, mesmo na época de Natal.
Odiava ainda as balas, porque, na volta da cidade, meu pai as tirava do bolso em um punhado. Mas aquela doçura melante não adoçava minha alma. Toda vez que ele colocava a mão em seu bolso, esperava que dali saísse, como num passe de mágica, qualquer outra coisa pequena, mas valiosa, como uma bonequinha, um lápis colorido, um apontador que fosse, menos as sempre insuportáveis balas. De doçura tinha as sobremesas de minha mãe, muito mais saborosas, ou as bolachas, as cucas e bolos feitos por ela no forno a lenha. Da mesma maneira, já sabia que quando saía com minha mãe para a cidade, ficaria aguardando, na maioria das vezes, em cima da charrete, sentindo o cheiro suado da égua. Por ficar quietinha e não chorar, a recompensa era sempre a mesma: repugnantes balas, ainda que a seca garganta me pedisse uma gasosa.
Mas naquele dia, aconteceu um episódio que, pela primeira vez, me faz pensar e valorizar a vida. Estávamos terminando a colheita. A carroça supercarregada de fumo. Meu pai colocava o pano por sobre o produto colhido, amarrando suas pontas bem firme na carroceria, a fim de não extraviar as folhas pelo caminho. Enquanto isso, pedi a minha mãe algo que desejava com ardor infantil. E a resposta foi não. Enquanto meu pai tocava os pobres cavalos, que puxavam com dificuldade a carga em direção à casa, os demais também se afastavam, caminhando atrás. No mesmo lugar, onde recebera o não, permaneci estaqueada. E por entre um misto de desespero e raiva, comecei a chorar de aflição. Sentei-me entre dois pés de fumo. Desiludida, infeliz, perguntava-me porque tinha nascido. Pedia a Deus que me aliviasse com a morte. Implorava aquilo ao Senhor com muito fervor. Encontrava-me só. O sol ardia sobre meu chapeuzinho de palha. A negra liga da nicotina ardia em minha boca, esfregando minhas sujas mãos no rosto. Dos olhos continuavam a brotar as lágrimas como torneira aberta. Quando finalmente me acalmei e pude ver algo em minha volta, ali estava ela, diante mim, a tão clamada morte. As negras escamas, com rodelas amarelas, reluziam ao sol. Enrolada, cabeça erguida, pronta para o pequeno bote. Poderia até acariciá-la. Bastava estender minha mão. Quando os outros se dessem conta da minha demora, saindo a minha procura e me encontrassem, provavelmente estaria morta ou em estágio irreversível. Num ímpeto, porém, saltei para trás. Corri, sem parar, até a nossa moradia. Talvez tenha sido a única vez em que fiz aquele percurso tão rápido.
Já no pátio, subi na velha laranjeira, pois seus galhos eram meu local predileto de descanso e vadiagem. Quando minha mãe me chamava para auxiliá-la em algum pequeno serviço e eu não respondia, ela saía a minha procura. Mas por não olhar para cima, nunca me encontrava. E dali, eu sempre podia ver o mundo e as coisas de outro ângulo, de um lugar um pouco mais alto. Recuperada do susto, invadiu-me um estado de consciência de que, pela primeira vez, Deus fizera contato comigo, mostrando-me que insatisfações nunca são o suficiente para desejar a morte. Ao mesmo tempo, tive a plena certeza de que Ele colocou sua divina mão por sobre a venenosa serpente, impedindo-a que me picasse. Naquela situação, a minha desvantagem, frente à víbora, era total.
Tempos mais tarde, pude entender e aceitar que aquele não de minha mãe doera muito mais nela do que em mim. Chorei novamente, de tristeza e arrependimento pelos pedidos feitos, tanto à minha mãe, por tê-la feito sofrer, como ao que dirigi a Deus. Ao mesmo tempo, chorei de alegria e de gratidão ao Senhor por não me haver atendido, mas, em contrapartida, havia me ensinado tanto. E até a adolescência, não me lembro de ter pedido alguma coisa a alguém.



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