Marli Marlene Hintz

Obras: oficina




Do primeiro encontro ...

...
Já conhecendo algo mais sobre os colegas e integrados pela brincadeira inicial, esperamos os próximos exercícios, certos de que tudo seria fácil.
Enquanto alguns ainda revêem seus textos, o Coordenador escreve no quadro-negro: Tratado prático do fabrico de galipões utilizando gradaós escolhidos, solicitando à turma que escreva um texto com esse título.
É um impacto. As palavras desconhecidas deixam-me insegura, mesmo integradas em uma frase coerente. E logo a pergunta interior: "Mas o que será que ele pretende com isso? Mostrar a limitação do meu vocabulário?" Os mais desesperados lançam um pedido de socorro: "Um dicionário! Meu reino por um dicionário!"
O choque vai-se amenizando. O impossível aos poucos se torna um desafio a ser vencido. Com maior ou menor rapidez, todos acabam por encontrar significados para os substantivos exóticos e, em quarenta e cinco minutos, os textos estão prontos. É hora de apresentá-los aos colegas, o que é feito através de leitura em voz alta e muitos risos. Os galipões e gradaós de cada um assumem conteúdos semânticos desconcertantes.
Com essa técnica, cada qual é obrigado a desordenar e desorganizar suas certezas. De maneira prática, nos é evidenciado que tudo é imaginável, que podemos dar sentidos aleatórios aos vocábulos. Embora de modo intuitivo, eu já sabia que a ficção difere dos demais gêneros, aprendo que ela vai mais além, podendo sugerir um texto sobre aquilo que desconheço de modo absoluto.



EXERCÍCIO:

O jogo das palavras raras

OBJETIVOS:

1. Desestabilizar certezas
2. Incentiver a ousadia na ficcional.

DESENVOLVIMENTO:

a) Fornecer o título Tratado prático do fabrico de galipões, utilizando-se gradaós escolhidos (ou qualquer outra que tenha, em sua formulação, palavras de uso incomum), a partir da qual, em 40 minutos, deve ser produzido um texto.

Fonte: Luiz de Antonio de Assis Brasil




Texto exemplar


Tratado prático de fabrico galipões, utilizando gradaós escolhidos


Feito por homens de bem, de linguagem culta e esmera inteligência, reunida em local apropriado, após a meia-noite. Constava, no final, de linhas e entrelinhas dúbias. Fato esse que não foi visto com tristeza, mas sim, com certo alívio. A culpa, é lógico, recairia, se questionado, sobre o escrevinhador que, devido ao baixo salário pago pelo cargo, foi preenchido por um senhor magricela recém-alfabetizado. As idéias do grupo? Ah, essas não! Essas eram brilhantes, cuja lapidação havia custado quilates de intelectualidade de gente tão esforçada ... construir galipões em lugares apropriados, tipo no deserto, ou em rochedos ou quiçá até no fundo do mar, sugeriu o mais esperto. O acesso era fato secundário. O fundamental era sua grande utilidade. O material a ser empregado, ou seja, os gradaós, deveriam ser, com certeza, importados de países distantes. Os recibos, no entanto, pela sua pouca importância, poderiam ser substituídos por os de alguma gráfica de fundos. Se necessário fosse o seu registro, todos concordavam que o cartório seria o do Doutor Ausente, pois era o mais confiável.
Estabelecidos os procedimentos afins, fez-se a nomeação do engenheiro responsável que, sem dúvida, por sua astúcia em construções, era o Doutor Fio Surupiado.
Lamentavelmente, o tempo de entrega de cada unidade ficou em branco. Sabe-se de antemão dessa dificuldade. As empreiteiras andam tão abusadas que não respeitam seus contratos. Talvez o lapso também não fosse apenas delas. O material sempre falta na ocasião.
Por isso, o único definido no prazo justo, mas que não foi nada fácil, foi o percentual de cada participante de tão fastioso e exaustivo tratado.

(HINTZ, M.M.)



(In: LAMAS, Berenice Sica & HINTZ, Marli Marlene. Oficina de criação literária, um olhar de viés. Porto
Alegre: EDIPUCRS, 2002, p. 20-22)



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